Que o cinema nacional tem mostrado a cara e se consolidado nos últimos tempos, a gente já sabe. Em 2015, por exemplo, tivemos o sucesso quase que unânime de Ana Muylaert, “Que horas ela volta”, coroado com prêmios como o Troféu APCA, Festival de Sundance e Festival de Berlim. Esse ano foi a vez de Kleber Mendonça Filho, com Aquarius.

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O longa ainda nem tinha sido lançado oficialmente por aqui, e a expectativa para que o filme fosse nomeado o representante do Brasil no Oscar 2017 na categoria “Melhor Filme Estrangeiro” já era alta. A primeira exibição mundial da co-produção Brasil-França foi em Cannes, sendo muito aguardado por lá.

Acabou que, pra surpresa de MUITA gente, o nomeado pelo MinC em seu lugar foi “Pequeno Segredo”, de David Schurmann. Ainda assim, Aquarius seguiu fazendo barulho no Brasil e no mundo; não só por sua quase excelência, mas pela abordagem de cunho político que gerou muita discussão por aí afora.

Começando com uma ambientação que se passa nos anos 80, artisticamente impecável: composição de ambiente, figurino, objetos de cena, carros da época e, claro, a música. Música é, inclusive, um elemento importante e recorrente em Aquarius, não só fazendo papel de trilha sonora não diegética, mas como grande auxiliar no desenvolvimento da narrativa.

Clara (Sônia Braga), jornalista na casa dos 60 anos, mora em um apartamento em Boa Viagem (Recife), num condomínio antigo e quase sem nenhuma infraestrutura. Rústico e ao mesmo tempo acolhedor, o imóvel ganha vida no decorrer da história, é parte da família e coisas significativas aconteceram lá, justificando a importância e apego da protagonista pelo lugar – sugerindo ao telespectador que sinta o mesmo, que se sinta em casa e que essa casa seja imprescindível. Em Aquarius, a locação também é um personagem.

Pois bem, uma construtora inicia um projeto de modernização, o que significa comprar cada apartamento do prédio, derrubá-lo e reconstruí-lo. O representante da construtora e projetista responsável pelo “novo Aquarius” (Humberto Carrão) não tem lá uma abordagem exatamente pacífica ou adequada. Juntando isso à inflexibilidade de Clara na hipótese da venda, temos, então, o embate, que não se resume apenas na pressão sofrida por Clara para que deixe o prédio em que passou a vida, mas na falta do falecido amor, dos amores mal resolvidos, dos impasses familiares e os impasses internos consigo mesma.

Sônia Braga entrega uma Clara real e inspiradora, uma personagem que poderia ser alguém da nossa própria família, a amiga, a vizinha do lado. Pessoa real, com problemas reais. A atuação, portanto, é indefectível. Soma-se a interpretação impecável e a fotografia, direção de arte e outros aspectos, como a trilha sonora e produção de casting, feitos primorosamente.

Estamos na reta final de 2016, e dificilmente Aquarius não será o melhor filme nacional do ano!

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Sempre amou o mundo das artes e sempre foi muito curiosa: o combo perfeito. Via filmes loooongos quando ainda era muito pequena, sem sair do sofá, com o pai e os irmãos, e não deu outra; cresceu e viciou em histórias. Reais ou fictícias. Cresceu e estudou comunicação social com foco no audiovisual e trabalhou em produtoras de vídeo, emissoras de TV, entre outras. Ama viver em São Paulo. Também é chegada nas tatuagens. Tá sempre com um livro na mão, e nunca sabe onde tão os óculos...
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