Uma viagem pelos mais famosos personagens dos quadrinhos argentinos no Paseo de las Historietas, em Buenos Aires.

Como professor de Filosofia e grande amante de histórias em quadrinhos, a personagem Mafalda sempre teve lugar cativo entre meus personagens favoritos. A maior referência quando pensamos em quadrinhos argentinos, criada pelo cartunista Quino e apresentada pela primeira vez em 1962, rapidamente tornou-se símbolo da reflexão sobre o estado atual do mundo e faz tão parte da histórias dos grandes personagens dos quadrinhos quanto o Superman, Homem Aranha, Tintim, Charlie Brown entre outros.

Porém, a grande verdade é que nem só de Mafalda vivem as historietas de nossos hermanos. Os argentinos são tão, ou mais, viciados em histórias em quadrinhos quanto nós brasileiros. E, assim como no Brasil, as primeiras histórias em quadrinhos argentinas datam do final do século XIX, começando pelos cartuns e charges até evoluírem para as histórias e tiras tais como conhecemos hoje. Fortemente influenciada pelas histórias em quadrinhos europeias, sobretudo da Espanha e Itália – ao passo que no Brasil a influência principal veio dos quadrinhos norte-americanos – a produção quadrinista argentina caracteriza-se por uma intensa identificação nacionalista, forte crítica social, engajamento político e textos intelectualizados, além de flertar por diversos gêneros como a ficção científica, gênero policial e quadrinhos adultos. Porém, com a distribuição em massa dos quadrinhos norte-americanos, a produção latina terminou por ficar, muitas vezes, ofuscada.

Isso contribuiu para que, no Brasil por exemplo, conhecêssemos apenas uma pequena parte dos grandes personagens dos quadrinhos argentinos. Pensando nisso, o governo de Buenos Aires criou em 2009 o Paseo de las Historietas, um circuito que passa por famosos bairros, como San Telmo, Montserrat e Puerto Madero, onde podemos visitar estátuas e admirar desenhos nas paredes dos personagens mais famosos dos quadrinhos argentinos, muitos dos quais nós brasileiros nem sequer ouvimos falar.

MAFALDA (esquina das ruas Chile e Defensa)

O passeio começa pela Calle Chile, 371, casa onde viveu o cartunista Quino. A estátua da personagem é um dos principais pontos turísticos da cidade de Buenos Aires e desde 2014 ela está acompanhada dos personagens Manolito e Susanita.

Mafalda

ISIDORO CAÑONES (rua Chile com Balcarce)

Criado pelo cartunista Dante Quinterno, em 1930, é conhecido como o playboy portenho. Tão carismático, como picareta, Isidoro é um garanhão que representa a típica classe média argentina. É o padrinho de Patoruzú.

Isidoro Cañones

LARGUIRUCHO E SUPER HIJITUS (rua Balcarce com México)

Hijitus é um menino que vive “nos canos”, isto é, pobre, cuja única posse é um chapéu mágico que o transforma num super-herói sempre que ele vê uma injustiça. Um dos seus grandes amigos é o rato gigante e muito ingênuo Larguirucho. Ambos personagens foram criados pelo desenhista Manuel Garcíe Ferré e se popularizaram graças à série animada Las Aventuras de Hijitus, tida como o primeiro desenho animado produzido na América Latina.

LARGUIRUCHO

Super Hijitus

MATÍAS (entre as ruas México e Venezuela)

Matías é uma criança ingênua, alegre e travesso que tenta entender as complexidades do mundo adulto através de suas relações com as pessoas, principalmente sua mãe, e as coisas. Foi criado em 1993 pelo quadrinista Fernando Sendra.

Matias

DON FULGÊNCIO (esquina das ruas Balcarce e Venezuela)

Don Fulgêncio, o homem que não teve infância, é um personagem extremamente popular entre os argentinos. Sempre usando terno, Don Fulgêncio é um homem de negócios que gosta de fazer coisas típicas das crianças, o que acabou por dar-lhe a alcunha de “o homem que não teve infância”. Foi criado por Lino Palacio em 1938, mas popularizou-se pelo filme Don Fulgencio – el hombre que no tuvo infância, dirigido por Enrique Cahen Salaberry e lançado em 1950.

Don Fulgêncio

CLEMENTE (rua Balcarce, entre Venezuela e a avenida Belgrano)

Clemente é um ser parecido com um pássaro, porém sem asas ou braços. Foi criado pelo grande quadrinista Caloi e representa o típico homem argentino: se alimenta de azeitonas, bebe mate e é fanático por futebol – desejando jogar no Boca Juniors para daí chegar à seleção argentina – além de ser um grande crítico social.

Clemente

CHICAS DE DIVITO (Belgrano com Balcarce)

As Chicas de Divito não são bem personagens, mas sim desenhos criados por Guilherme Divito para estamparem a revista Rico Tipo. Representadas de maneira sensual e caracterizadas pela sua cintura fina, as Chicas de Divito se tornaram símbolo da Revolução Sexual argentina da década de 60.

Chicas de Divito

PATORUZÚ (Belgrano com Paseo Colón)

É um importante personagem criado pelo desenhista Dante Quinterno, considerado um dos mais populares heróis dos quadrinhos argentinos. Ele foi apresentado pela primeira vez em 1928 como o último o último cacique dos gigantes Tehuelches, tribo que foi definida pelos conquistadores espanhóis como “gigantes dotados de grande prodigiosa”. Patoruzú é então o grande herói dotado de força sobre humana, mas muito ingênuo, o que permite que ele seja constantemente enganado pelos vilões. Seu tutor é o picareta Isidoro Cañones. Na mesma avenida onde se encontra a estátua de Patoruzú se encontram também as estátuas de Patoruzito e Isidorito, as versões modernas e infantis dos personagens.

Patorozu

GATURRO (Rua Azopardo)

Gaturro é um dos mais populares personagens infantis argentinos. São vários livros, tiras, desenhos para TV e conteúdo online criado especialmente para este gato bonachão, aventureiro e criativo, muitas vezes chamado de Garfield portenho. Foi criado em 1993 pelo cartunista Nik.

Gaturro

DON NICOLA (Avenida Alicia Moreau de Justo y Azucena Villaflor, Puerto Madero)

É um imigrante italiano dono de um cortiço no famoso bairro La Boca, retratado como um homem amável sempre pronto a ajudar seus inquilinos. Suas tiras retratavam a grande variedade cultural trazida pelos imigrantes que chegavam à Buenos Aires. Foi criado por Hector Torino em 1937.

Don Nicola

DIÓGENES E EL LINYERA (Avenida Marta Lynch)

É uma criação conjunta do desenhista uruguaio Tabaré e escrita pelos roteiristas argentinos Jorge Guinzburg, Carlos Abrevaya e Héctor García Blanco, apresentada em 1977. Retrata as reflexões do cachorro Diógenes que está sempre acompanhado do vagabundo Linyera (mendigo). Tem grande apelo popular graças às tiradas cômicas e irônicas de Diógenes.

DIogenes

LANGOSTINO E CORINA (Parque Mujeres Argentinas)

Langostino é um marinheiro filósofo criado por Eduardo Ferro em 1945. Em suas tiras ele está sempre a desbravar novos mares, continentes e a conhecer novas pessoas, sempre a bordo de seu navio Corina.

Langostino

INODORO PEREYRA E MENDIETA (Parque Mujeres Argentinas)

Inidoro Pereyra foi criado para ser uma paródia dos trejeitos e expressões típicas dos gaúchos dos pampas argentinos. Acabou tornando-se um sucesso e Inidoro tornou-se o anfitrião de todos que visitam seu rancho, ajudando-os com reflexões e conselhos. Está sempre acompanhado de seu cão Mendieta. Foi criado pelo quadrinista Roberto Fontanarossa, em 1972.

Inidoro Pereyra

 

LA JIRAFA (Avenida de los Italianos, em frente ao Museu do Humor)

É um dos muitos animais retratados de maneira humorística pelo desenhista Guilhermo Mordillo, que em suas tiras aborda temas como amor, esportes e reflexões sobre a vida.

La Jirafa

Nada melhor do que encerrar esse passeio no Museu do Humor, inaugurado em 2012 para ser o espaço para celebrar os quadrinhos consagrados e apresentar as novas produções argentinas. Vale a pena a visita. Quem sabe um dia não teremos um espaço desses dedicado à produção de quadrinhos nacionais aqui no Brasil?