Crítica do Filme A Chegada

O que você mudaria se pudesse assistir sua vida toda passando diante dos seus olhos? Talvez essa seja uma das maiores indagações filosóficas da existência do ser humano. Também é o palco de diversas abordagens no cinema e na literatura em forma de ficção científica. Não é a primeira vez que esse questionamento é trazido aos olhos do público, Em 1968 Stanley Kubrick concebeu 2001: Uma Odisseia No Espaço, filme considerado por muitos um clássico absoluto e que traria o questionamento existencial e que talvez seja a grande influência de Dennis Villeneuve em A Chegada.

Embora não tão preciosista quanto Kubrick, o cineasta canadense vem construindo uma carreira sólida e muito competente, sua habilidade na condução de suas narrativas proporcionam uma versatilidade ímpar. Filmes como Incêndios, Os Suspeitos e Sicário apesar de distintos quanto ao gênero, guardam entre si a assinatura do cineasta.

A opção por abordar questões humanas utilizando a ficção científica pode até não ser uma das escolhas mais originais, mas o diferencial é que o diretor muda a forma. Em 2001 Kubrick direcionou toda a construção para tons bem oníricos que flertam muito forte com a filosofia, aqui Villeneuve optou por um viés mais “pé no chão”, e é ai que o diferencial do filme reside.

O motor narrativo principal é o processo de comunicação. No enredo, os alienígenas chegam a terra com o intuito de entregar uma espécie de “presente”, descobre-se que tal presente trata-se de uma nova forma de escrita, ou um idioma novo. As grandes potências mundiais se empenham nesse trabalho para tentar decifrar os que os visitantes interplanetários estariam supostamente transmitindo.

O fato de que a pessoa que dominar tal escrita ganha a habilidade de enxergar o tempo de uma forma multidirecional, é uma metáfora narrativa muito forte para a crítica que o diretor quer levantar, atualmente mesmo como o advento astronômico das redes sociais e da internet o ser humano ainda é muito incapaz de compreender o que os outros querem dizer. Há um grande entrave, muito se fala, mas pouco se diz, e esse problema é abordado de forma muito contundente por Villeneuve, apontando para que aqueles que dominam a comunicação tem o poder de mudar a sua vida e a dos outros, passam a enxergar o mundo de outra forma.

Já nos minutos iniciais de A Chegada, já dá para notar que a construção é por flashbacks, se perder nesse tipo de narrativa é muito fácil e comum, pois o material é de difícil manuseio, porém, Villeneuve consegue dar embasamento suficiente para o espectador ir modelando os fatos à medida que vão acontecendo, não tornando a apreciação do filme cansativa e com diversos pontos que elevam o êxtase e tudo isso sem deixar a reflexão de lado, isso é um ponto positivo principalmente para aqueles que não gostam muito de explicações exageradas que são comuns em filmes blockbusters.

Tudo isso é apoiado com atuações soberbas dos atores protagonistas, que nitidamente compraram a ideia do diretor e foram comprometidos com a proposta entregando um trabalho de construção coeso e sem exageros, detalhe não menos importante para a trilha sonora que sem muito esforço captura o público para o filme.