Crítica do filme “A Lei da Noite”

Atualmente, o escritor norte americano Dennis Lehane é um dos mais importantes autores de romances policiais, suas obras renderam diversas adaptações, tais como: Ilha do Medo, Sobre Meninos e Lobos e A Entrega. Sua assinatura, que sempre pega tons mais sombrios e se aproxima muito da narrativa Noir, se torna um forte atrativo.

Não é a primeira vez que Ben Affleck, sentando na cadeira de diretor, adapta um livro de Lehane. No ano de 2007 ele escreveu e dirigiu Medo da Verdade (Gone, baby, gone) filme que marcou o início de sua carreira como cineasta e que aparentemente o agradou e o fez retornar agora em 2016 com A Lei da Noite (Live By Night).

A marca de Ben Affleck como diretor se mantém presente em alguns momentos da projeção, ele filma num ritmo menos acelerado as cenas que antecedem a um tiroteio ou alguma ação mais visual, o que já tinha sido feito em seu filme chamado Atração Perigosa e que goza da sua influência em Clint Eastwood, ele precede a ação com uma dosagem de suspense o que cria um clima de tensão muito forte.

Outro ponto que Affleck costuma trabalhar é a construção de personagens ambíguos e que também se faz presente aqui, Joe Coughlin (Ben Affleck) é um sujeito que vive em meio ao crime e a máfia, mas que não se enxerga como um malfeitor e constantemente busca seu lugar fora desse ambiente, porém, se vê o tempo todo forçado a permanecer nessa situação e nunca encontra forças para quebrar esses laços.

Contudo, existe um forte desequilíbrio entre os atos do filme. A narrativa se perde por efeito da falta de objetivo da construção do roteiro, o desbalanceamento entre o romance e a ação, entre estese o drama, acaba por desequilibrar a equação que o diretor queria propor, a relação amorosa entre o Joe e a personagem Emma Gould (Sienna Miller) num primeiro momento é forte, mas no segundo seguinte é descartada sem uma base convincente se fazendo usar de um artifício dentro do enredo que soa mais como uma desculpa para mudar os ares do filme, e isso se repete ao longo do roteiro e inclusive termina num diálogo que soa muito plástico (artificial).

A retratação de época e o figurino empregados na produção da longa metragem é louvável, as caracterizações das localidades, das comunidades são bem elaboradas e condizem com a proposta, o problema é que há também uma contramão quando se trata do elenco, o talento de Ben Affleck no comando das câmeras não se repete na atuação e todos demais atores parecem ligados no piloto automático o que dificulta a credibilidade das relações entre eles, que soam como apenas algo de papel.

Talvez o acúmulo de tarefas de Affleck, que dividiu suas atenções entre os imbróglios das produções dos filmes da Warner/DC, tenham impactado na sua dedicação no comando de A Lei da Noite, filme que soa diversas vezes lento e preguiçoso, mas que talvez (ou pouco provável) sirva como incentivo para alguma editora do Brasil trazer o livro do Dennis Lehane para nosso idioma.