Terror sci-fi da Netflix explora aprofundamento sobre questões fundamentais humanas.

Lançado na cadeira de diretor ao fazer Ex Machina, o cineasta inglês Alex Garland deixou um cartão de entrada que chamou muito a atenção do público e da crítica, tanto foi assim que para um trabalho de estreia ser premiado com um Oscar é um mérito que poucos conseguem e já de pronto deixando algumas características visuais marcantes.

Visivelmente admirador do gênero de ficção científica, Garland vai trabalhar várias questões filosóficas que permeiam a evolução da humanidade e para isso vai utilizar de motor narrativo a dualidade entre os personagens e a androide, onde os diálogos constroem a linha de pensamento que o diretor quer que nós reflitamos. À medida que o ser sintético vai ganhando traços mais humanos, os humanos vão perdendo a sua humanidade.

Essa marca narrativa vem a se repetir agora em seu novo trabalho, Aniquilação. É justamente uma evolução de suas ideias primárias, mas agora com maior elaboração e com mais pretensão. Com mais orçamento e com certa liberdade criativa, o diretor expande suas metáforas visuais, cria novas marcas e começa a fundamentar de vez suas assinaturas.

Sobre o filme

O tema central é o mesmo (de Ex Machina) que é a desconstrução humana, antes ele utilizou um robô semi orgânico, agora o que vai mover a construção é uma espécie de entidade alienígena, chamada no roteiro de The Shimmer, que tem a capacidade de modificar a estrutura genética das criaturas que entram em seu ambiente, fazendo com que sofram várias espécies de mutações.

Interessante notar que esse detalhe (do DNA) é o ponto central da mensagem a ser transmitida. Os personagens, ao entrar em colapso genético, começam a demonstrar o quanto os humanos são frágeis psicologicamente para enfrentar as mudanças e o quanto somos acomodados com a zona de conforto e sempre oferecemos resistência quando precisamos nos readaptar. Esse dilema é abordado de uma maneira sutil por Garland.

Incomoda um pouco o excesso de flashbacks que o diretor utiliza para dar fundamento aos seus protagonistas, quebrando o ritmo de várias cenas que precisam de maior continuidade para ter credibilidade. Consegue uma boa profundidade, mas essa freada no ritmo atrapalha as sequências mais elétricas.

Visualmente estonteante, Aniquilação mostra que ficção científica sempre tem o seu lugar, seguindo os passos de A Chegada, Blade Runner 2049 e tantos outros que mostraram que ainda pode-se gerar frutos de um trabalho bem feito com esse gênero, que é sempre rico em temas e reflexões.