O filme do Mortal Mais Poderoso da Terra iniciou suas gravações no Canadá, é o que diz o Twitter do diretor David F. Sandberg. E nós já estamos por concluir a série de críticas de quadrinhos desse herói tão aguardado nos cinemas.

[Confira aqui a 3ª parte]

Ao ser obtido pela DC Comics, o Capitão Marvel, após fazer aparições nos títulos mais correntes, inaugurou uma revista própria que não alavancava; é que os quase 20 anos de sumiço dele na indústria fizeram sentir seus efeitos: de um lado, os antigos leitores não reconheciam naquele “Shazam” o colosso que foi um dia o herói, do outro lado, as novas gerações não se atraíam por um personagem deslocado em meio ao panteão de super seres, àquela altura, consolidados. Esforços como a telessérie live-action SHAZAM! (1974-1977) mais a animação (1980-1982), ambas da Filmation, tentaram dar algum impulso à visibilidade esmaecida do Vermelhão, todavia o dano já estava feito, a revista foi cancelada por baixas vendas em 1978. Dessa data até o começo da nova década, Billy Batson e sua família voltaram a fazer pequenas participações em crossovers até que o Capitão chegasse a atuar na maxissérie Crise nas Infinitas Terras (1986). Com a reformulação de todo o universo DC pós-Crise, o Capitão Marvel, ainda sem revista própria, saiu da chamada Terra-S e passou a residir no mundo regular, integrando a Liga da Justiça Internacional, o que ajudou numa melhor familiaridade dos novos leitores com o velho Capitão. Foi aí que outro empreendimento de dar a ele uma nova revista mensal nas bancas foi planejado, capitaneado pelo artista Jerry Ordway com o título “O Poder de Shazam” (1995-1999)[1], fase que será objeto desta crítica. O período “O Poder de Shazam” foi muito bem recebido e, em parte, resgatou o prestígio dos anos dourados da Fawcett, com contos situados, inclusive, nos anos do pós-guerra, com homenagens aos criadores originais, conservação do cânone, do vocabulário, dos protagonistas. Jerry Ordway tinha por intenção um revival da melhor época e do universo do Capitão Marvel, aparentando, aliás, que este vivia num mundo à parte da DC, como era antes de ter sido adquirido por esta; depois, os outros autores que foram assumindo o roteiro o inseriu no mundo regular, mudando, consequentemente, o tom das histórias. Para todos os efeitos, foi graças a Jerry Ordway que o Capitão Marvel voltou a cair nas graças do público, caracterizando os anos 1990 como uma revitalização do personagem, fator que, mais à frente, iria cataputá-lo a produções como Reino do Amanhã e O Poder da Esperança, obras premiadas que fecharam o novecênio com chave de ouro.

Revival

O conto de hoje é uma edição especial de 1995 que inaugurou a fase “O Poder de Shazam” e que serviu de prequel para o mix do personagem no Brasil (SHAZAM! – A Origem do Capitão Marvel. Argumento e desenhos de Jerry Ordway. São Paulo: ed. Abril, dezembro de 1996, 100 págs.). A origem do nosso super-herói é recontada respeitando seu cânon do tempo da editora Fawcett, com alguns poucos preenchimentos nas lacunas que os antigos Bill Parker e Otto Binder deixaram, mas que em nada subvertem o estabelecido. Numa expedição arqueológica em Abu Simbel, Egito, financiada pelo rico pesquisador Dr. Silvana, um grupo de três arqueólogos encontra uma câmara secreta do filho do faraó Ramsés-II. Um deles traduz um hieróglifo por nome “SHAZAM”, enquanto outro acha um colar escaravelho pertencente ao sarcófago. Sob posse do escaravelho e querendo pilhar a câmara, um dos arqueólogos assassina seus dois companheiros, o casal Batson, pais das crianças Billy e Mary. Mary, sem saber, é levada para morar com o assassino de seus pais; Billy, sob tutela de um tio (Ebenezer) de olho em sua herança, é despachado de casa para mendigar nas ruas. Com 10 anos de idade, para sobreviver, Billy Batson vende jornais nas esquinas, usa a mesma roupa maltrapilha, dorme e come nas ruas e leva consigo sua pelúcia, o tigre Malhado. É quando, depois de ser humilhado nas suas vendas, numa noite chuvosa, uma estranha figura masculina aparece a ele e o pede que acompanhe até a estação de trem no subsolo. Lá ele conhece um ancião que vinha acompanhando sua vida, pede para que pronuncie uma palavra mágica: “SHAZAM”!, e o mundo da magia se abre para ele, tornando-se seu campeão, o Capitão Marvel.

Um revival de textos: todo texto é texto de outro texto

Quem deseja tecer críticas analíticas precisa ter algum conhecimento de mundo. Esse conhecimento de mundo é adquirido com a somatória de leituras, escutas ou assistências em diversos campos do conhecimento e com o acúmulo da experiência de vida. Quando o conhecimento de mundo do leitor (receptor) se torna conhecimento de mundo do autor (emissor) e ambos são reconhecíveis tanto um pelo outro, temos a intertextualidade, que são textos da memória coletiva cultural (interdiscurso), que se interligam, não importa o gênero ou a modalidade (se escrita, se sonora, se visual, se numérica, se iconográfica, etc.), porque texto não é como pensa o senso comum, blocos de palavras escritas; texto é enunciado que possui sentido, portanto, uma pintura, uma fotografia, um som e até objetos retirados de seu contexto normal viram textos. Despertando a consciência para níveis maiores, concluiremos que tudo o que a gente fala/escreve – e digo mais: tudo o que pensamos, gostamos, rejeitamos, enfim, tudo o que somos – não vem de nós mesmos como fonte, mas de outras pessoas, são características não originais, que vêm de características anteriores e semelhantes, compartilhadas quer pela herança genética, quer pela coletividade. Nenhuma palavra é nossa, pois ela traz consigo a perspectiva de outra voz; não somos totalmente autores de nós mesmos, somos textos de outros textos anteriores a nós que, por sua vez, nos tornaremos textos para outros textos depois de nós. Disso resulta que “ intertextualidade é o processo de incorporação de um texto em outro, seja para reproduzir o sentido incorporado, seja para transformá-lo”[2]. O que Jerry Ordway faz com seu revival de SHAZAM! – A Origem do Capitão Marvel, é um recurso de intertextualidade chamado bricolagem. A bricolagem é uma montagem de fragmentos de outros textos, formando um texto único (porém “um” com “vários”), num esquema semelhante à fotomontagem muito utilizada no movimento Pop Art de 1960. A ideia de bricolar vem do âmbito dos serviços domésticos de instalação: você não pode pagar um marceneiro, então você mesmo se lança a aprender e a inventar para sua casa utensílios com madeira usada, no famoso “do it your self” (“faça você mesmo”); isso é bricolagem. Com o Capitão Marvel, Jerry Ordway é o remontador da origem do personagem, não para desmontá-la e fazer uma nova, e sim para, além de restaurar, preencher o que falta. O autor se mantém fiel ao cânone, muitas vezes chegando a reproduzir (colar) em literal algum acontecimento da Era de Ouro, noutras vezes preenchendo (bricolando) espaços vazios que somente determinada peça feita sob medida encaixa nesses espaços. Em termos técnicos, o autor, aqui, não determina o texto (a história), antes, ele é conduzido pelo intertexto (a origem) para produzir seu texto (a história). Eu disse que Jerry Ordway “preenche espaços vazios que somente determinada peça feita sob medida encaixa nesses espaços”; digo isso porque a linha que separa o intertexto da mera imitação é frágil, se o autor for ruim ou mediano, ele estará fadado a se sair como mero imitador, reprodutor e até plagiador do texto original; se o autor for bom ele manterá a linha separatória clara, pois sua criatividade estará associada ao quanto de novidade ele soube agregar ao velho sem no entanto ofuscar ou desfazer o velho. O velho não se torna outra coisa, ele se atualiza e é reconhecível em qualquer tempo, se tornando clássico.

Exemplos de bricolagem: 1ª imagem, bricolagem do artista Dave McKean para capa de John Constantine Hellblazer. A foto real da primeira-ministra do Reino Unido, Margaret Thatcher, foi colada ao desenho e modificada, para surtir um efeito de pichação. 2ª imagem, exemplo de bricolagem com corda, tábua e cano para estante de casa.

 

Confiram abaixo o que Ordway manteve do texto original do Capitão Marvel e o que ele bricolou.

Texto original: “Surge o Capitão Marvel”, de Bill Parker e C.C. Beck (WHIZ Comics nº 02, 1940)[3]
 
Intertexto: O Poder de Shazam. SHAZAM! – A Origem do Capitão Marvel (1995)
Reprodução
 
 
Bricolagem

 

 

(Fato não mencionado).Os pais de Billy e Mary Batson são assassinados numa expedição no Egito. 

 

Chamado de Billy Batson enquanto vende jornais por um homem encapuzado até o metrô.Chamado de Billy Batson enquanto vende jornais por um homem encapuzado até o metrô. Esse homem é seu pai.

Entrada no trem místico.Entrada no trem místico.

Passagem pelo túnel dos “7 inimigos mortais do homem”.Passagem pelo túnel dos “7 inimigos mortais do homem”. 

Historama diante do Mago Shazam.Historama diante do Mago Shazam.

Revelação do tio de Billy Batson expulsando-o de casa para ficar com a herança.Revelação do tio de Billy Batson expulsando-o de casa para ficar com a herança.

Revelação da pronúncia da palavra mágica (transformação em adulto, o Capitão Marvel).Revelação da pronúncia da palavra mágica (transformação em adulto, o Capitão Marvel).

Aceitação imediata do chamado.Não aceitação imediata do chamado/aceitação posterior do chamado. 

Diálogo pacífico com o Mago Shazam.Diálogo hostil com o Mago Shazam, depois pacificado. 

(Fato não mencionado)O homem encapuzado intervém no conflito entre o Mago Shazam e o Capitão Marvel. 

Bloco de granito cai sobre o Mago Shazam.Bloco de granito cai sobre o Mago Shazam. 

Ameaça contida do radiossilenciador do Dr. Silvana contra a o sistema radilístico dos EUA.Ameaça contida de detonação contra o prédio da rádio Whiz. 

 

Billy Batson consegue emprego na rádio Whiz.(Fato não mencionado, somente nos números subsequentes). 

(Fato não mencionado, somente nos números subsequentes).Aparecimento do Tio Dudley. 

(Fato não mencionado, somente nos números subsequentes),Confronto com Adão Negro. 

(Fato não mencionado).Adão Negro perde a voz.

TOTAL = 07TOTAL = 11

 

 A subestação do trem, o ícone da intertextualidade

Praticamente todo o episódio do chamado da criança Billy Batson para a magia na subestação de trem foi intertextualizado em literal. Além de ser uma cena nostálgica, ela é icônica e foi entendida por Ordway como um elemento irremovível do conto por simbolizar a sua proposta de intertextualidade. Vejamos como. Leiam alguns trechos destas canções[4]:

Encontros e Despedidas
▬▬▬
Milton Nascimento
Trem das 7
▬▬▬
Raul Seixas
Trem de Ferro
▬▬▬
Manuel Bandeira/Tom Jobim
Trem Noturno
▬▬▬
(Guns n’ Roses – tradução)
A. Rose, Slash e I. Stradlin
(…)

São só dois lados

Da mesma viagem:

O trem que chega

É o mesmo trem

Da partida.

A hora do encontro

É também despedida.

A plataforma dessa estação

É a vida desse meu lugar,

É a vida desse meu lugar,

É a vida!

 

Todos os dias é um vai e vem,

A vida se repete na estação,

Tem gente que chega pra ficar,

Tem gente que vai

Pra nunca mais.

Tem gente que vem e quer voltar,

Tem gente que vai e quer ficar,

Tem gente que veio só olhar,

Tem gente a sorrir e a chorar,

E assim chegar e partir.

 

Ói! ói o trem,

Vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem!

Ói! ói o trem,

Vem trazendo de longe as cinzas do velho éon!

 

Ói! Já é vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem!

Ói! É o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem!

 

Quem vai chorar, quem vai sorrir?

Quem vai ficar, quem vai partir?

Pois o trem está chegando,

Tá chegando na estação,

É o trem das sete horas,

É o último do sertão.

Café com pão,

Café com pão,

Café com pão,

Virge maria, que foi isso maquinista?

Agora sim:

Café com pão,

Café com pão,

Café com pão.

Agora sim:

Voa fumaça,

Corre cerca,

Ai, seu foguista,

Bota fogo

Na fornalha

Que eu preciso

Muita força,

Muita força,

Muita força.

Oô…

Menina bonita,

Do vestido verde,

Me dá tua boca

Pra matá minha sede!

Oô…

Vou mimbora,

Vou mimbora,

Não gosto daqui.

Nasci no sertão,

Sou de Ouricuri.

Oô…

Vou depressa,

Vou correndo,

Vou na toda,

Que só levo

Pouca gente,

Pouca gente,

Pouca gente.

Carregado como um trem de carga,

Voando como um avião,

Estou me sentindo como um cérebro espacial

Mais uma vez esta noite.

(…)

Estou no trem noturno:

Garrafas para cima!

Estou no trem noturno:

Encha meu copo!

Estou no trem noturno:

Pronto para destruir e queimar!

Eu nunca aprendo.

Estou no trem noturno:

Amo esta coisa!

Estou no trem noturno:

Eu nunca consigo o suficiente!

Estou no trem noturno:

Para nunca mais voltar.

 

 

Notemos que as quatro canções falam sobre estação de trem ou do trem. No entanto, não se trata do trem máquina, meio de transporte, mas duma simbologia do trem como um estado de transição/transformação. Podemos concluir que na memória coletiva cultural (interdiscurso), o trem é visto como uma passagem de um estado para outro, símbolo duma linearidade dialógica e dialética, de algo que se desloca de um ponto desconhecido para outro infinito. Isso já existia no interdiscurso muito antes de o Capitão Marvel existir. O que seus criadores fizeram foi pegar esse texto do interdiscurso e intertextualizá-lo, assumindo uma nova roupagem, um novo texto: a subestação do trem e o trem em que Billy Batson é conduzido são uma passagem de nível do estado do mundo sensível para o mundo metafísico, da realidade visível à invisível, do imanente para o transcendente, da mística em lugar da física. A estação fica embaixo, no subsolo, escondida portanto do plano terreno mais visível, numa figurativa alusão ao esoterismo, ao ocultismo, à magia, ciências escondidas do mundo comum. O trem, em particular, funciona como uma figuração do próprio recurso da intertextualidade, com suas idas e vindas, retas e curvas, embarque e desembarque, “o trem que chega é o mesmo trem da partida”, isto é, o trem também é a memória coletiva cultural (interdiscurso) se deslocando, perpassando todos os textos, aqui e ali, do dito ao não dito, pois a língua não é estática e os textos não são únicos e irrepetíveis. O discurso discursa outros discursos, os textos são textos de outros textos num constante continuum.

A subestação e o trem, simbologia de estados transformatórios, do que é oculto e da intertextualidade. A subestação do trem, o trem propriamente dito e o túnel dos “7 inimigos mortais do homem” são as cenas que são reproduzidas quase que em literal entre o conto de 1940 e o de 1995.

É por essa riqueza de significado que Jerry Ordway prefere “não mexer” seus pauzinhos nessa cena, evitando a bricolagem para manter o máximo possível aquilo que ele julgou como canônico. De todo o conto de Ordway, a cena do metrô, o túnel dos “7 inimigos mortais do homem” até o trono do Mago, tem-se uma cópia quase literal da origem de 1940, para o autor, a parte intocável na mitologia do Capitão Marvel. E só é possível perceber essas nuances graças ao conhecimento de intertextualidade que todo crítico de arte tem de ter, mesmo com gente dizendo que gibi antigo de super-herói não tem nada de sofisticado.

Ps: Não percam a 5ª e última parte.

[1] No Brasil, fase publicada pela editora Abril no mix SHAZAM! (1996) após a minissérie Zero-Hora. O mix durou até o nº 12 por baixas vendas e parte de suas histórias foi transferida para o mix do Superman. A editora Abril deixou inconclusa a fase “O Poder de Shazam”.

[2] FIORIN, José Luiz. Polifonia textual e discursiva. In. Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade em Torno de Bakhtin. São Paulo: Edusp, 1994, p.30.

[3] Para efeito de comparação, uso aqui a edição da minissérie Coleção DC 75 Anos, vol. I de IV. A Era de Ouro. “Surge o Capitão Marvel” (WHIZ Comics #02, fevereiro de 1940). São Paulo: ed. Panini, 2010, pp.43-55.

[4] Canções como “Trem das Onze”, do Adoniran Barbosa, “Trem Noturno”, de Jimmy Forrest e James Brown, “Andar de Trem”, dos escoteiros, não foram citadas porque não se adéquam à proposta do assunto.

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