Crítica “Garota Sombria Caminha Pela Noite”

 

Com a falta de criatividade e qualidade dos filmes de terror na América do norte, que talvez tenha a melhor representação com o cineasta James Wan (que curiosamente não é americano) e sua franquia “Invocação do Mal”, atualmente os melhores filmes do seguimento estão localizados na Europa e Oriente, tendo como exemplo de qualidade técnica o “Haute Tension (High Tension) na França” e “Sob a sombra no Irã”.

Seguindo essa tendência a cineasta Ana Lily Amirpour, nascida na Inglaterra e de pais iranianos, apresenta sua primeira direção de um longa metragem e entrega um belo trabalho inicial. “Garota sombria caminha pela noite” (A Girl Walks Home Alone at Nigh, no original) vai usar como plano de fundo uma história de terror para abordar temas mais profundos como a discriminação e a ganância.

Para isso, Amirpour propositalmente opta por uma estética em preto e branco, o que demonstra sua intenção de referenciar o cinema de terror das décadas de 20 e 30, mais precisamente no movimento do expressionismo alemão. Percebe-se vários planos muito similares a Nosferatu de Murnau e a construção da cidade com tomadas noturnas e sombrias remetem precisamente ao filme M. No “O Vampiro de Dusseldorf” de Fritz Lang, o diretor faz uso das mesmas formas para abordar também uma história de violência.

A história envolve vampirismo, drogas e sensualidade, mas a maneira sutil de colocar isso em tela faz da narrativa uma construção mais voltada ao clima do que o gozo visual. Por isso a violência gráfica não é o objetivo de Amirpour, muito pelo contrário, no roteiro existe muito pouco diálogo e as cenas são bem mais contemplativas, lembrando em vários momentos a forma usada pelo americano Terrence Malick, com as devidas ressalvas.

A trilha é toda pautada em sintetizadores, o que colabora para a intenção da cineasta em construir uma narrativa climática e trazer para o espectador o background de cada personagem, sem precisar ser didática ao ponto de explicar tudo com texto e falas. Porém é colocado nas figuras nas parede e nos trejeitos de cada um, o que novamente remete ao cinema expressionista que em sua maioria era mudo e tudo era feito com atuações corporais e gestos.

Em vários momentos Amirpour enquadra planos, detalhes nas mãos dos protagonistas manuseando dinheiro e joias, saqueando os pertences de cadáveres, o que demonstra claramente que a ganância é um dos temas abordados. A constante busca por riqueza transita do tráfico ao homicídio e deixa claro como o ser humano é, em todas as eras e lugares, sempre violento e ganancioso.

Para um trabalho de largada a cineasta demonstrou bom domínio de linguagem, usando símbolos visuais e sempre optando pela ausência de diálogos excessivos, sem que isso implique na perda de profundidade da abordagem e dos temas, trazendo uma nova forma de se conceber uma obra de terror e ainda resgatando alguns pontos do cinema clássico expressionista.