Crítica do filme Passageiros

Filmes de ficção científica estão em pauta na história recente do cinema e felizmente os exemplares apresentados transitaram de bons a ótimos filmes, com sucesso de público e crítica, podendo citar brevemente, Interestelar de Christopher Nolan, Gravidade de Alfonso Cuarón, A Chegada de Dennis Villeneuve, ambos demonstrando que os cineastas conseguiram achar o ponto de equilíbrio das obras e entregaram trabalhos de muito gabarito, com isso logicamente o sucesso latente se torna um atrativo.

Em Passageiros, o cineasta norueguês Morten Tyldum (de O Jogo da Imitação) vai dar a sua contribuição para o time de filmes que trabalham questões humanas, fazendo uso da ficção para alavancar a história e o roteiro e para isso recheia a narrativa de muitas referências a vários ícones do gênero.

Na história, Jim Preston (uma clara referência ao capitão Jim Kirk de Star Trek) é um mecânico a bordo de uma espaçonave que tem a missão de transportar um grupo de pessoas da terra para um novo planeta, que lá irão instalar um novo lar para a humanidade, porém, ele é acordado de forma precoce de seu sono criogênico.

O diretor tem lapsos de um bom trabalho ao explanar a solidão do protagonista que move a construção da narrativa, para apontar mesmo que de forma superficial, os reflexos psicológicos que uma pessoa adquire quando se vê rodeado de outras pessoas, mas no entanto, é impossibilitado de interagir socialmente com elas.

Seu único contato com algo mais humano é, ironicamente, um androide atendente do bar da nave. Aqui o cineasta aponta claramente para a criação de Stanley Kubrick em O Iluminado. Primeiro é a sensação de solidão em algo espaçoso e assim como Kubrick fez com o hotel Overlook, Tyldum vai aproveitar a nave. Além disso, o barman usa inclusive roupas idênticas ao barman do Iluminado, com enquadramentos de câmera iguais e também com os diálogos.

As referências a Kubrick continuam no momento em que Jim resolve se aventurar no lado externo da espaçonave, demonstrado pela roupa utilizada, além do plano detalhe no momento em que entra no corredor de saída, sendo estas uma clara alusão a “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Contudo, a falta de norte do roteiro (aliado à falta de habilidade do diretor) se inicia na introdução da personagem Aurora (Jennifer Lawrence), a virada brusca de um drama existencialista para um romance florido, incomoda pela falta de profundidade do desenvolvimento de ambos os arcos narrativos, despendendo muito tempo de projeção para pouca substância de fato, necessária para a fundamentação do que o roteiro criou no início, ou seja, o segundo arco é desconexo com o primeiro.

Para sacramentar de vez a indecisão do roteiro quanto ao seu objetivo, o filme sofre uma terceira virada, após a construção (superficial) do romance dos protagonistas, uma situação “deus ex machina” surge para transformar o filme em uma aventura/ação, regada a cenas eletrizantes de sobrevivência que culmina numa solução forçada para a trama e para o envolvimento dos dois personagens principais.

Visivelmente o diretor se perdeu em meio a sua proposta e ao roteiro que propôs, acabando por tornar Passageiros uma colcha de retalhos sem sentido, as referências se tornam pormenorizadas devido a falta de nexo entre os atos do filme que se apropria de uma construção puramente visual.