Crítica do filme Silence de Martin Scorsese

 

Religião é um tema ácido que sempre protagonizou debates e discussões muito acalorados em qualquer esfera social. Os mais devotos e fanáticos sempre tendem a atrair a razão e verdade dogmática de sua doutrina para si, em detrimento das crenças alheias e a não aceitação de um ensinamento diverso.

Afinal, alguma religião detém a verdade absoluta? O personagem Rodrigues (Andrew Garfield) em uma passagem muito acentuada diz: “Vocês usam a verdade como um veneno”, indicando de forma expressa o tema central de Silence, filme de Martin Scorsese, que através dessa questão tão emblemática, vai traçar a linha narrativa que levanta reflexões filosóficas no campo da religiosidade.

Interessante notar que o silêncio referido no título do filme tem uma dupla perspectiva. A primeira se trata de um elemento estruturante do enredo, na história os padres missionários que tem a incumbência de catequização no Japão começam a sofrer uma perseguição muito forte, e para não se submeterem ao crivo das sanções, são obrigados a viver escondidos ou a negar seu salvador para não serem torturados ou mortos, ou seja, os japoneses os silenciavam.

A segunda perspectiva tem relação íntima com a assinatura do diretor, Scorsese é um exímio utilizador do silêncio como apêndice narrativo em seus filmes, essa marca pode ser observada mais de perto em vários de seus trabalhos.Em Touro Indomável, nas cenas de luta de Jake LaMotta, o silêncio é usado como gerador de impacto dos golpes. Em Os Infiltrados é usado para credibilizar a tensão em que os personagens se encontram. Tais características compactuam com a ideia defendida por vários grandes cineastas, entre eles Alfred Hitchcock, que diz que mais do que a presença de sons, a ausência é também importante para a construção do filme.

A subversão de ótica que o diretor trabalha é que colabora para o impacto que ele quer criar no espectador, no sentido de que a Igreja Católica tem um histórico opressor contra culturas diferentes, o que inclusive culminou na Inquisição. Aqui o inverso ocorre e os padres é que são os oprimidos, fazendo uma analogia contundente com os apóstolos que eram perseguidos e mortos.

O ponto alto da trama é a reinserção do personagem Ferreira (Liam Neeson), uma vez que é justamente nesse ponto que o tema central fica latente, os diálogos entre ele (Ferreira) e Rodrigues expõem muito bem o sentido que Scorsese quer levantar, ou seja, a relatividade cultural dos vários povos existentes no mundo e o caráter absolutista dos integrantes de uma sociedade praticante de uma determinada crença, que inclusive beira o abissal chegando a torturas e decapitações.

Como todo cineasta autoral que se preze, Scorsese mantém sua marca de forma bem elegante no percurso da construção de Silence, desde os primeiros segundos de projeção, se permitindo usar uma fotografia com cores fortes, como é o tema, e uma crueza nas cenas que gera incômodo em quem assiste, isso tudo em prol de uma reflexão muito maior.