É nosso dever defender o mundo. E é o que eu vou fazer.” Com essa frase, Diana (Gal Gadot) desafia sua mãe Hipólita (Connie Nielsen) e parte em uma jornada ao lado de Steve Trevor (Chris Pine) para acabar com a guerra, derrotar Ares – o deus da Guerra – e reestabelecer a ordem e paz no mundo. Este é o enredo básico de Mulher Maravilha (Patty Jenkins, 2017) que chega esta semana aos cinemas e que também, pode-se dizer, tem uma missão salvífica a cumprir.

Interessante observar que, assim como no mundo desigual em direitos em que vivemos, a mulher ainda tem que constantemente provar seu valor para ocupar certos espaços, o filme Mulher Maravilha chega com muitas desconfianças e tendo que superar muitos desafios que vão além de salvar o Universo Cinematográfico DC/Warner do fracasso dos filmes anteriores. Além de ser o primeiro filme da maior heroína de todos os tempos, é dirigido por uma mulher (coisa que ainda é rara em Hollywood) sem grandes filmes no currículo e igualmente protagonizado por uma atriz israelense desconhecida, prontamente rejeitada pelos fãs, não por sua qualidade artística, mas por não ter “o corpo ideal” para viver a heroína. Por essas e outras razões, Mulher Maravilha não é só mais um blockbuster baseado em quadrinhos. Ele é um filme que pode ajudar a redefinir toda a indústria cinematográfica hollywoodiana.

E, ainda bem que as principais qualidades de Mulher Maravilha sejam justamente a direção de Patty Jenkins e a incrível atuação de Gal Gadot. Patty Jenkins tira o melhor de cada personagem e faz o filme fluir bem em três atos bem distintos o que desperta sentimentos diferentes ao longo do filme:

No primeiro ato, Themyscera, linda e estonteante como deveria ser um lugar criado por deuses. O filme nos apresenta a história das Amazonas de maneira didática e sucinta, sem rodeios ou explicações desnecessárias. Destaque para Robin Wright, no papel de Antíope e para a cena de luta na praia.

No segundo ato, somos levados a Londres num competente trabalho de direção de arte, que reconstrói a cidade do início do século XX. Aqui Diana e Steve Trevor – mais uma ótima atuação de Chris Pine, indo além do papel de par romântico da mocinha – são os protagonistas de um grande bloco de humor que, ao contrário do humor burlesco dos filmes da Marvel, trata-se de uma crítica social. Em Mulher Maravilha o humor vem das situações vividas por Diana que nos revelam como nossa sociedade é moralmente alienante, sobretudo em relação às mulheres, e como estas regras de conduta, quando analisadas com a crueza que Diana o faz, se revelam ridículas, a ponto de serem jocosas. Esta crítica se estende até o momento em que Trevor, Diana e a equipe recrutada seguem para a frente de batalha e o filme atira na cara do espectador o quanto uma guerra é cruel e quanto suas justificativas são infundadas. Destaque para a cena de luta em “Terra de Ninguém”, a melhor do filme.

Finalmente, o último ato não se resume à luta megalomaníaca contra o vilão principal como na maioria dos filmes do gênero. Mesmo na luta, o filme não perde a chance de mandar uma mensagem sobre como devemos nos posicionar, fazer o bem, mesmo que o ser humano seja naturalmente mal, é preciso um pouco de altruísmo, algum sacrifício e o desejo de fazer a diferença, mesmo que pequena. Somente atitudes baseadas em amor podem superar as forças do mal.

Mulher Maravilha traz de volta a relevância dos filmes de super-heróis em um mercado saturado, traz a nostalgia dos clássicos antigos, uma crítica social potente de forma bem-humorada e uma mensagem para todos. Se, como diz a música do filme, “ser humano é amar”, aprendamos com a mulher as maravilhas que o amor pode fazer.