Talvez a aversão seja a reação mais normal para uma pessoa que gosta de cinema ao se deparar com uma notícia de que será feito um remake. É normal o sentimento de rejeição, principalmente quando se trata de uma obra de que se gosta muito. Com isso surgem as possíveis indagações: “mas porque um remake?”, “não precisa de um remake”, que se tornam frases clássicas nos comentários de matérias que noticiam esse tipo de situação.

Uma máxima, que é a mais pura verdade, é ignorada diversas vezes por vários fatores. Seja pela memória recente, que se limita a poucos anos de abrangência, seja pela falta de conhecimento da arte como um todo, o certo é que: remakes sempre fizeram parte da trajetória do cinema, sempre.

Existem dois grandes grupos de filmes que são refilmados: os válidos e os inúteis. O que posiciona um determinado filme em um ou outro grupo é justamente a forma e a intenção que o cineasta tem ao propor esse tipo de criação.

Em 1964 Sergio Leone dirigiu Por Um Punhado de Dólares, filme que alavancou a carreira de Clint Eastwood e fundamentou o western spaghetti, um gênero importantíssimo para o cinema. Leone foi buscar sua inspiração no cinema japonês, mais precisamente no filme Yojimbo (1961) do cultuado diretor Akira Kurosawa, ele remodelou toda a narrativa, substituiu a milenar espada samurai por uma colt, trocou os samurais pelos cowboys, adaptou a história para o contexto que desejava e o produto final é um clássico do gênero que arrebatou milhares de fãs.

Para um remake ser válido ele tem que acrescentar algo novo para a narrativa, forma, gênero e enredo, senão se transforma pura e simplesmente em um filme inútil. Recontar apenas para recontar ou para modernizar visualmente um filme, é sacramentar a falta de aplicabilidade cinematográfica da produção. Gus Van Sant tentou fazer isso em Psicose (1998), apenas coloriu o clássico de Hitchcock, que era preto e branco, não propôs uma discussão nova, uma técnica nova, ou seja, nada, praticamente uma reprodução quadro a quadro. Assim, se apoiar na ideia de que o público novo não assiste filme antigo pode até funcionar nas bilheterias, mas para a arte é inócuo.

É bem verdade dizer que a maior parte dos remakes são filmes que transitam de bons para ótimos, e isso muitas vezes nem é lembrado pelo público, que se preocupa apenas em reclamar da proposta de refilmagem. Scarface (1983) de Brian de Palma é um exemplo clássico, muitas pessoas sequer sabem que o filme é uma refilmagem, originalmente Scarface foi uma produção feita por Howard Hawks lá na década de 30, Brian de Palma trabalhou outras questões e outros temas aliado ao talento do Al Pacino, com isso transformou o filme de 83 mais conhecido e bem mais sucedido que o original.

Também não deixa de ser verdade que os norte-americanos têm certo problema em aceitar filmes estrangeiros. Alguns dizem ser preguiça de ler legendas, outros dizem que é certo sentimento de inveja, mas o que mais se aproxima da verdade é o egoísmo. E por isso sempre acontece de pegarem um filme que deu muito certo na Europa ou outro continente e refilmar. Em tese, não há utilidade fazer isso por puro egoísmo, porém, o problema é quando nos deparamos com filmes ótimos, como por exemplo, Perfume de Mulher (1992), que é um remake de um filme italiano de mesmo nome, Insônia (2002), que foi inspirado num filme norueguês, Os Infiltrados (2006), que o Scorsese refez a versão de Conflitos Internos (2002) e foi vencedor de quatro Oscars.

Vale dizer também que muitas dessas produções são verdadeiros caça níqueis, concebidos mais para ganhar dinheiro que para acrescentar a arte, e são inúmeros os exemplos: Oldboy (2013), Deixe-me entrar (2010), O Grito (2004), Madrugada dos mortos (2004) dentre tantos outros. São filmes que apenas pegam carona e não mudam nenhuma regra do jogo.

O que inspirou esse texto foi justamente a observância da reação do público perante uma notícia da produção de um remake, o problema é que no cinema é praticamente impossível avaliar a qualidade da obra de forma antecipada. Sem assistir ao filme não há como saber se vai se encaixar como válido ou inútil, mas o que se percebe é uma condenação à priori de uma coisa que está apenas no mundo das ideias ainda, como se fosse uma regra geral que se for remake é ruim. A história diz o contrário, que a grande parte não só é bom como se torna clássico, mas para fugir do status quo é preciso compreender a história do cinema, analisar diversos fatores que envolvem a produção como o diretor, roteirista, atores, para enfim, depois que a obra sair, poder avaliar para o bem ou para o mal.

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