Resenha – Cidadão Incomum, de Pedro Ivo

No cenário dos quadrinhos brasileiros, o super-heróis nos moldes americanos representam uma sempre presente influência. Bem natural, visto que o Brasil é um enorme mercado consumidor para a cultura pop estadunidense. Desde o surgimento de “Capitão 7”, todos os anos, jovens autores buscam apresentar suas versões de vigilantes mascarados e cruzados de capa. Com “Cidadão Incomum”, de Pedro Ivo, temos uma incursão consistente nesse gẽnero, que vale alguns minutos de atenção ao leitor aficionado por super-heróis.

Desde que Alan Moore trouxe os super-heróis para “o mundo real”, um paradigma foi estabelecido para histórias de super-heróis “maduras”.E ser considerada madura parece ser tudo no cenário brasileiro de quadrinhos que por um lado procura se distanciar dos maiores sucessos nacionais – todos infantis – e por outro se encontra limitada pela noção de impraticidade de um super-herói no antigo terceiro mundo. Metalinguagem, violência e a busca por personagem redondas passou a ser o grande guia dos autores que se arriscam por essa seara, em geral dando mais foco para essa busca do que para um universo ficcional bem estruturado.

Cidadão Incomum, por ser fruto de um livro já publicado, parece escapar a esse erro frequente dos novos super-heróis brasileiros. Mesmo fugindo, no quadrinho, da fórmula básica da história de origem, é possível ler a história e perceber que há todo um background para os personagens e acontecimentos. Na trama, acompanhamos três histórias que se cruzam. Caliel é um jovem ator que recebeu superpoderes de maneira misteriosa e busca, através de ações públicas de heroísmo, atrair quem quer que seja que possa ajudar a entender o que está acontecendo. Em uma ação, acaba detendo o criminoso Zika, um homicida em série que teme o diabo. Na linha do confronto entre os dois, o policial Érico está tentando entender o que está acontecendo na sua cidade.

Cheio de pequenas pontuações de temas atuais, alfinetadas políticas e comentários sociais aqui e ali, “Cidadão Incomum” nasce como um filho do tempo. Expressões como “cidadão de bem”, “mimimi esquerdalha” nos lembram que estamos ainda numa versão distópica daquilo que foi o país. Espaço para isso existe na Guará, que já despontou com quadrinhos mais políticos. Aqui no entanto, isso é pano de fundo para uma história que se assumirá por completo uma trama de gibis sobre super-heróis. A arte tem estilo, embora se perceba que não é um trabalhoprofissional nos moldes das comics que o quadrinho tenta emular.

“Cidadão Incomum” desperta a curiosidade e é um passo a mais na consolidação dos quadrinhos brasileiros como um gênero amplo que pode contar qualquer história, desde que bem feita.

 

 

Cidadão Incomum, 2020
Roteiro e desenhos: Pedro Ivo
Editora Guará

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