Crítica | Frankenstein, de Guilhermo Del Toro (2025)
A versão de “Frankenstein” de Guilhermo Del Toro despertou, desde seu anúncio, uma expectativa enorme. Conhecido por seus filmes de monstros, todos com designs maravilhosos e ambientações riquíssimas, somado à devoção de o diretor admitia ter com a obra fizeram com que nossa curiosidade fosse elevada a um certeza de esse filme teria que ser bom, não apenas honrando o material base, mas também o próprio talento do diretor.
Com o longa finalmente lançado, podemos dizer que nossa expectativa foi alcançada e, até mesmo, ultrapassada, seja em termos da sensibilidade que o projeto evoca ou do espetáculo audiovisual que Del Toro nos proporcionou.
Fidelidade ao espírito da obra
Ao se equilibrar entre a fidelidade ao livro de Mary Shelley e o clássico filme de 1931, esta nova produção propõe um diálogo com o nosso tempo — e com um novo tipo de monstro: mais íntimo, mais humano e, portanto, mais próximo de nós do que nunca.
Explico. Se, em um primeiro momento, a obra de Shelley nos faz refletir sobre os perigos da ciência sem limites, há também algo de mais profundo em sua criação. Culta e atenta às transformações de sua época, Mary Shelley inspirou-se em figuras como Giovanni Aldini, conhecido por seus experimentos com eletricidade em corpos de executados, e Erasmus Darwin, que especulava sobre a possibilidade de reviver a vida por meios mecânicos. Também foram referências o trabalho de Luigi Galvani — cujo nome deu origem ao termo “galvanismo” — e as pesquisas de James Lind, que investigava o movimento muscular em rãs mortas sob estímulos elétricos.
Mas talvez a influência mais íntima e dolorosa tenha vindo de dentro de casa. Um dos grandes filósofos de sua época, William Godwin, e pai de Mary, acabou por decepcioná-la de maneira profunda. Filha de dois pensadores proeminentes — Godwin e a filósofa feminista Mary Wollstonecraft —, Shelley cresceu em meio a ideias libertárias e progressistas, mas sua vida familiar foi marcada por perdas e distanciamentos. A morte precoce da mãe e a dificuldade do pai em lidar com a criação das filhas criaram um sentimento de abandono que se acentuou quando Godwin desaprovou publicamente o relacionamento de Mary com Percy Bysshe Shelley, então casado.
Biógrafos e estudiosos costumam ver nesses traumas ecos diretos em Frankenstein: a figura do criador que rejeita sua própria criação reflete a experiência de uma filha que se sentiu rejeitada pelo pai. Mas a decepção de Mary Shelley não parece ter sido com as ideias de Godwin, mas com sua incapacidade de vivê-las — uma fratura entre filosofia e afeto que marcou profundamente tanto sua vida quanto sua obra. Não é exagero dizer que Del Toro captou isso com precisão. E não por acaso: já quando venceu o Oscar por “A Forma da Água”, o diretor refletia sobre a origem do mal ao afirmar — “Com raras exceções, o caldeirão da maldade está na infância. Se pudéssemos evitar em uma geração, só uma, os maus-tratos e a incompreensão, o mundo mudaria. A violência espiritual, física e moral que a família exerce sobre a criança é o germe do horror.”
Essa leitura ecoa com força em seu Frankenstein. Aqui, as relações entre gerações de homens são o verdadeiro núcleo do terror: cada um tentando romper, sem sucesso, com o passado que o formou. Victor, que odeia o pai e repete seus padrões de abuso, torna-se uma representação muito mais fiel ao romance original do que a versão moralizada do clássico da Universal.
Seres imperfeitos, mas deslocados em um mundo imperfeito
Por outro lado, o desajeito da criatura diante do mundo — tão marcante na versão cinematográfica de 1931 — ganha novos contornos. Del Toro resgata elementos do livro, incluindo um dos momentos mais comoventes: quando o monstro aprende a ler e desenvolve uma amizade sincera com um homem cego. Há até ecos do filme de Thomas Edison, como na fascinante cena do espelho — aqui, mais contida visualmente, mas encenada com uma intensidade extraordinária pelos atores.
O diretor reúne um elenco estelar e, de certo modo, pop para sua adaptação. Oscar Isaac interpreta Victor Frankenstein, o cientista que desafia a morte ao criar um ser a partir dos restos de corpos de soldados caídos na guerra. Mia Goth — estrela da Trilogia X, da A24 — vive Elizabeth, a paixão de Victor e da Criatura, papel entregue a Jacob Elordi. O elenco ainda conta com Christoph Waltz como Harlander, além de David Bradley, Ralph Ineson, Charles Dance e Felix Kammerer (de Nada de Novo no Front).
Mas é Elordi quem carrega o coração do filme. Seus tremores nas mãos — tão longilíneas, tão elegantes, com a leveza de um bailarino —, sua postura tortuosa e sua voz sussurrante e cavernosa compõem uma performance física impressionante. Mais do que isso: Elordi traduz com intensidade o drama essencial de Frankenstein — a dor entre pai e filho, criador e criatura, humanidade e rejeição. Está tudo nos olhos.
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