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Crítica | Avatar: Fogo e Cinzas

Muitos pensamentos povoaram minha mente após sair da sessão de “Avatar: Fogo e Cinzas”. Pensei bastante nos ingredientes da ceia de natal que prepararei logo após a publicação dessa crítica, pensei se não havia exagerado nos amendoins que levei para a sessão e pensei nas contas de janeiro. Tudo isso parecia maior do que a história que eu tinha acabado de ver, talvez pela terceira vez. 

O filme claramente reafirma a vocação de James Cameron para o excesso — tanto no deslumbramento visual quanto na duração e na ambição narrativa. Mas pedir ao espectador mais de três horas de atenção é sempre um gesto de confiança que não se paga. O problema é que, apesar da grandiosidade técnica, o filme raramente justifica esse tempo estendido em termos dramáticos ou emocionais, resultando numa experiência que alterna entre o fascínio estético e um cansaço persistente.

Bonito, mas ordinário

Do ponto de vista técnico, é impossível negar o virtuosismo. Cameron continua operando no limite do que a tecnologia digital permite: os ambientes de Pandora são minuciosamente construídos, a captura de movimento atinge um nível de refinamento que torna quase indistinguíveis os corpos digitais e os atores de carne e osso, e o uso do 3D — já abandonado silenciosamente pela maior parte da indústria — ainda encontra aqui um defensor convicto. Os primeiros minutos funcionam quase como uma vitrine tecnológica, lembrando ao público por que Avatar ainda é um evento cinematográfico no sentido mais literal da palavra.

Entretanto, à medida que o impacto visual se estabiliza, o roteiro revela suas fragilidades. Assinado por Cameron, Rick Jaffa e Amanda Silver, o texto sofre de inchaço crônico, repetindo estruturas, conflitos e até sequências de ação que parecem ecoar diretamente os filmes anteriores. Para quem não revisitou os capítulos anteriores recentemente, a sensação inicial é de confusão; para quem revisitou, a impressão pode ser ainda pior: a de estar assistindo a variações pouco inspiradas de uma história já contada. O miolo do filme se arrasta, com longas passagens que pouco acrescentam à narrativa ou ao desenvolvimento dos personagens.

A introdução do elemento “fogo” e do clã Mangkwan surge como a grande promessa temática deste terceiro filme. Varang, interpretada por Oona Chaplin, é apresentada como uma líder feroz, movida por uma crença quase mística na dominação como única forma de sobrevivência. Há ali um potencial interessante, tanto simbólico quanto dramático, que poderia expandir o universo moral da franquia. No entanto, essa promessa se concretiza apenas parcialmente, já que a personagem acaba reduzida a uma vilã funcional, mais definida por sua estética e por sua relação com Quaritch do que por uma real complexidade ideológica.

Quaritch, por sua vez, continua sendo um dos elementos mais curiosos da série: um antagonista morto, ressuscitado e reconfigurado, preso a um ciclo de ódio e vingança que beira o caricatural. Sua aliança com Varang — explicitamente sexualizada em uma cena que provoca mais estranhamento do que desejo — tenta adicionar uma camada de tensão adulta ao filme, mas acaba soando deslocada. As decisões do personagem ao longo da trama parecem cada vez mais erráticas, sugerindo menos um arco trágico consistente e mais a necessidade de mantê-lo ativo para os próximos capítulos da franquia.

Um final precoce

No clímax, Cameron retorna à sua zona de conforto: grandes batalhas, criaturas colossais e a oposição maniqueísta entre os Na’vi e os humanos “peles-rosadas”. Há momentos isolados de força dramática, como uma crise moral que questiona o conceito de liderança e sacrifício, ou um confronto que evoca duelos clássicos da literatura e do cinema. Ainda assim, a sensação predominante é a de déjà-vu, agravada pela dependência recorrente de criaturas gigantes que surgem convenientemente para equilibrar forças e resolver impasses narrativos.

No fim das contas, “Avatar: Fogo e Cinzas” se impõe como um paradoxo: tecnicamente impressionante, mas emocionalmente distante; gigantesco em escala, mas curiosamente vazio em impacto. Cameron construiu um universo tão detalhado e autossuficiente que parece impermeável à crítica, como se qualquer objeção fosse automaticamente absorvida pela grandiosidade do espetáculo. Se houver outro Avatar, resta esperar que vire toda a fórmula de cabeça para baixo, do contrário a fórmula do dinheiro se tornará a fórmula do fracasso. 

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