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Resenha | Cover, de José Amorim Neto

O mundo das comic de super-heróis brasileiros é um microcosmo à parte da produção de quadrinhos no país. Sempre foi. Se de uns anos pra cá, uma nova leva de artistas surgiu e despontou nos quadrinhos brasileiros, movidos por prêmios, um maior alcance promovido pela internet e por fim por uma enorme iniciativa da MSP em revelar para o grande público talentos do país inteiro com suas antologias e grafic novels.

Quadrinistas da velha guarda de super hérois ficaram fora do bonde, por motivos que só temos como especular. José Amorim Neto, embora jovem, faz parte dessa “velha guarda” e fez o caminho de seus personagens entre seus pares, com heróis coloridos e cruzados de capa publicados por autores brasileiros.

Escrever super-heróis no Brasil pode ser uma arte ingrata. As velhas intrigas entre aqueles que miram uma estética estrangeira torcem o nariz para aqueles que tentam um pouco mais de autoralidade. Os que situal as histórias no Brasil esbarram em problemas de verosimilhança e aqueles que apostam numa suposta “brasilidade” correm sempre o risco de cair no pastiche. Nesse sentido a ideia de uma cidade de Monte Cruz soa tão bem. O nome remete primeiro às lembranças de colégio sobre os primeiros nomes deste país. Mas também parece fazer graça com certos equívocos de estrangeiros tentando retratar a America do Sul em suas histórias. Saber que Cover foi criado na adolescencia do autor, permite fazer esses links e sorrir. Faz lembrar também do tempo em que todos nós descobrimos super-heróis e brincavámos com a descoberta.

Se a narrativa é leve e descompromissada, com um pé fincado no entretenimento, o projeto gráfico demonstra um talento editorial raro na pródução de super-heróis brasileiros, embora fique exposto a falta de recursos. O giro de desenhistas, que fizeram seus traços acompanhando páginas prontas desde a adolescência cria diversidade. É um conjunto de visões que normalmente se vê apenas em antologias, mas aqui pensadas e organizadas por um editor que é também o autor das histórias. De traços mais simples e quadrados até alguns bastante realistas, não se pode deixar de ver essas composições que são a cara do mercado brasileiro. As artes de Lenon Berhends, Silvio Rivera, Pedro Lucas, Sullivan Suád e do próprio José Amorim Neto funcionam como um todo.

Penso que há certas produções nacionais que tentam seguir pelo caminho das produções dos EUA e fracassam.E há também aquelas que se prendem à ideia de fazer algo autêntico e ficam presas num nicho. Cover mostra um outro caminho, o caminho que aprendeu primeiro a fazer a estética estrangeira, a mesma que definiu essa linguagem de cultura de massa e de forma natural – nunca forçada – a aplica dentro das limitações para fazer o melhor possível. Deveria ser vista com mais cuidado pelos artistas daqui. Tem muito a mostrar.