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Série | O Voo de Diana – Introdução

No seriado com Lynda Carter (1975-1979), a Mulher-Maravilha voava ou não voava? Descubra aqui.

 ✩ Apontamentos de Wagner

Nessa parte introdutória, o tratado se ocupa em dedicar-se para algumas pessoas e explicar os motivos que levaram a ele, basicamente um debate de fórum sobre a personagem, se ela voava no tempo do seriado (1975-1979) de Lynda Carter ou se só passara a voar muitos anos depois, e como isso se deu.

Como até então esse informe era confuso até mesmo para fãs de longa data, a autora trata de responder logo de primeira, e a partir da resposta desenvolve esse tratado inédito nas mídias nerds sobre a Princesa Amazona.

Duas cenas emblemáticas da telessérie: o voo no jato invisível e o hiper-salto.

✩ Pra Comecinho de Nosso Maravilhoso Papo

O famoso rodopio da transformação.

Dedico com carinho e amizade estas minhas anotações (um tanto que gripadas! =/) aos meus amigos presenciais donde vivo, e aos virtuais do G+ que me apoiaram e defenderam na Comunidade g+Quadrinhos. Dedico também aos que valorizam e fazem jus à liberdade, que todos os dias levantam voo por ela, sem o medo de cair.

“Liberdade de voar num horizonte qualquer,

Liberdade de pousar onde o coração quiser.

Não há limites, altura ou fobia,

Porque o coração salta

Os abismos que a mente cria.”

(Cecília Meireles, 1901 – 1964).

A autora deste tratado, Virna Maria Ockhein, em suposta foto dela, recuperada do Drive (2013).

Amiguchos dos quadrinhos, de antemão garanto a vocês, a Mulher-Maravilha NÃO VOAVA ANTES DE “CRISE NAS INFINITAS TERRAS”. Mas só até a década de 1970; no início desta mesma década, em 1972, a Mulher-Maravilha PASSOU A VOAR ANTES DE “CRISE NAS INFINITAS TERRAS”, e, durante os eventos dessa mesma maxissaga, a Princesa Amazona já voava.

Mulher-Maravilha Secretária?

Turminha, é necessário entender toda a confusão em torno dessa questão tomando como dado o fato de que, durante longo tempo, a indústria dos quadrinhos não era disciplinada e organizada como agora, tá? Ela ainda não sabia lidar bem com a novidade do produto “quadrinhos”, e da Era de Ouro à Era de Prata, a continuidade não era uma técnica importante.

A consequência disso foram os problemas jurídicos, editoriais, artísticos, publicitários, midiáticos. Some a isso um mundo arraigado na tradição machista, másculo, patriarcal, masculinizado, despreparado para acolher, com equidade, mulheres super-heroínas, subvertendo os antigos padrões sociais.

Só pra se ter uma ideia do que digo, a Mulher-Maravilha, primeira mulher honorária na LJA, recebeu um pífio título de “secretária” da Liga. Pra juntar o preconceito com a injustiça, quando ela deixou o grupo por um período (na década de 1970), os membros a forçaram a um “estágio probatório” durante mais de um ano antes do seu retorno ao grupo.

Muitas falhas e contradições

A Mulher-Maravilha, por mais que se esforçasse pra ganhar sua dignidade e afeição na indústria, era posta em segundo plano, descuidada pelos artistas da época, subestimada pelo público (masculino).

Haviam constantes furos de roteiro, informes desencontrados, contradições e confusões em texto ou desenho, retcons inconscientes, inconsistentes, inconsequentes, impulsivos, personagens soltos (como Diana enfermeira, Babywonder, Wondergirl, Snapper Carr), tudo a gosto pessoal de cada escritor/desenhista, sem supervisão séria ou edição rigorosa. Inevitavelmente, a habilidade de voo dela (e outras mais!) não fugiria à regra, meus queridos!

A ficha da Sociedade da Justiça da América, tendo por secretária a Mulher-Maravilha. Folha anexa de “All-Star Comics # 08” (dez. 1941).

O tempo do seriado com Lynda Carter é a Era de Ouro, nos anos 1940 da 2ª Guerra Mundial. Aquela Mulher-Maravilha da TV ainda não voava, dava hiper-saltos e dependia do jato invisível. Entretanto, nos quadrinhos, timidamente ela começava a alçar voos.

A cronologia do seriado não era a mesma da dos quadrinhos da heroína grega. O tempo em que se passam os eventos da telessérie é os anos 1940, no período da 2ª Grande Guerra. Nos quadrinhos o tempo eram os anos 1970, o auge do feminismo. Nos quadrinhos dos anos 1940 a heroína não voava, e o seriado manteve isso.

✩ Teoria da Vulnerabilidade ao Patriarcado

Pra essa questão do não voo da Mulher-Maravilha, leitores liberais da velha guarda da amazona passaram a teorizar uma avalanche de explicações. Uma das mais discutidas no espaço nerd mais nostálgico e liberal é a da “vulnerabilidade ao patriarcado”, a qual não aceito, pelo simples fato de não mais fazer sentido quando a Princesa Amazona passou a voar nos anos 1970; mas que de todo modo lhe apresento, turminha!

A Resistência de Diana era confusa?

Uma premissa da Era de Ouro era a de que todas as amazonas themysciranas têm força, agilidade e resistência sobre-humanas, onde Diana Prince é a mais poderosa delas. Relativo a isso, a Wikipédia, há um tempo, problematizava um verbete sobre Diana, dizendo que sua resistência “é confusa”, dado que ela pode suportar rajadas de seres sobrenaturais ou alienígenas, mas que não resiste à balas, 7 flechadas e tiros, tendo que usar braceletes pra desviá-las.

A velha guarda então apresentou a tal da teoria da vulnerabilidade ao patriarcado, recorrendo às histórias de Robert Kanigher e Denny O’Neil (décadas de 1950-1960), segundo as quais a Mulher-Maravilha não pode receber danos de armas pontiagudas ou inflamáveis fabricadas no mundo do patriarcado, posto que, na organização das amazonas tal qual conhecemos, Hera e Zeus separaram e puseram inimizade entre o matriarcalismo e o patriarcalismo. Ou seja, armas brancas, balas e granadas podem feri-la pela maldição de serem concebidas pelo sexo masculino e por receberem as graças de Ares, o Deus da guerra.

A teoria ganhou força!

Isso explicava coisas que William Moulton Marston não explicou. Como, por exemplo: por que Diana ou as amazonas ficavam fracas quando imobilizadas com objetos forjados por homens?

Essa sujeição, segundo Kanigher/O’Neil, ocorria sempre que fora dos domínios da Ilha Paraíso Themyscira. Ou seja, meus queridos, a amazona que saísse da ilha ao mundo patriarcal estaria sujeita e vulnerável a danos masculinos.

A teoria ganhou força em meados dos anos 1990, na fase Loebs/Deodato, que, vez outra, ressaltava isso. Portanto a Mulher-Maravilha da Era de Ouro/Prata, uma vez fora de Themyscira, não conseguia voar, limitando-se a dar hiperssaltos.

Lynda Carter é o nome! Após duas temporadas como Mulher-Maravilha, a atriz acumulou uma fortuna de 10 milhões de dólares ainda nos anos 1980.
Continua na próxima edição (1ª parte).

Wagner Ávlis

Crítico de histórias em quadrinhos, membro da Academia Maceioense de Letras, articulista e professor de língua portuguesa.