Críticas

Crítica | Maul: Shadow Lord (2026)

Com a nova produção de Star Wars, encerrada ontem em pleno “May the 4th”, a Disney aponta uma direção a se confirmar nos próximos anos, a de que a franquia voltará a ser um produto de nicho, longe das ambições de super produções destinadas ao sucesso bilionário nos cinemas, e focando na construção de uma base de fãs menor, mas mais fiel e voltada a consumir obras derivadas com muitos bonequinhos à venda.

Não quero ser mal compreendido, não tenho dúvidas de que Star Wars voltará à sua boa forma na tela grande. Trata-se de uma daquelas franquias (como Jurassic Park ou Velozes e Furiosos) que se tornaram tão grandiosas que um respiro de uns anos — ou uma década — são o bastante para gerar no público uma carência pelo próximo Blockbuster. Mas sou de uma geração que, vendo o encerramento apoteórico de “A Vingança dos Sith”, teve que se contentqar com o chamado “Universo Expandido” na forma de quadrinhos, livros e, em especial, uma série animada na Cartoon chamada “The Clone Wars”.

É possível que estejamos retornando a esse modelo. Depois de produções caríssimas e de qualidade irregular lançadas para o streaming, “Maul: The Shadow Lord pode representar a consolidação de um caminho mais modesto — vindo na esteira dos experimentos conduzidos por Dave Filoni nos últimos anos, como forma de pavimentar o futuro da franquia para uma nova geração.

Bonito, mas ordinário (e ainda bem)

Não há grandes novidades aqui. Jedi sobreviventes, uma padawan sendo tentada pelo lado sombrio, Darth Maul preso em um ciclo de tentativa e erro, e a costura de pontas soltas da franquia — especialmente sua aparição em “Solo: A Star Wars Story”, que prometia uma continuação nunca realizada. Ah, sim… Soma-se a isso a presença recorrente de Darth Vader como figura de ameaça, quase um bicho-papão, repetida à exaustão na última década.

Tudo isso tem um gosto de lugar seguro e de submissão aos fãs, mas não parece algo muito difícil de entender já que as últimas tentativas de subversão das expectativas foram tão mal executadas quanto mal recebidas (sim, estou falando de “The Acolyte”).

Ainda assim, seria um erro deixar que essas repetições diminuam o mérito da série. As introduções de novos personagens são carismáticas, e o tom neo-noir se destaca em uma narrativa que — à maneira do antigo Universo Expandido — poderia facilmente ter saído de uma revista pulp.

No início da série, Maul se mobiliza para reconstruir e fortalecer seu império criminoso. Durante essa jornada, cruza o caminho de Devon, uma padawan sobrevivente da Ordem 66. A dinâmica entre os dois ecoa a obsessão do personagem em separar Ezra Bridger de Kanan Jarrus. Devon, por sua vez, ao lado de seu mestre, Eeko-Dio Daki, tenta se adaptar à vida clandestina, escondendo-se do Império.

Em uma adição particularmente inspirada — que aproxima a série de narrativas mafiosas — surgem figuras típicas do noir investigativo: o cansado capitão de polícia de Janix, Brander Lawson (Wagner Moura), e seu parceiro, Duas-Botas (Richard Ayoade), um droide bem-intencionado, mas rigidamente apegado aos protocolos.

Admito que ficaria muito feliz em acompanhar essa dupla em outras produções futuras em outras mídias e — a despeito do final da temporada — acho que isso pode mesmo acontecer.

Maul e o coração da série

Maul continua tão temível quanto desde sua estreia em “A Ameaça Fantasma”. A ação e os efeitos visuais mantêm o padrão elevado esperado da franquia. Mas é quando desacelera e mergulha na mente de Darth Maul que “Shadow Lord” realmente encontra sua força. Um dos grandes triunfos da série está no desenvolvimento do antigo Lorde Sith.

Sabemos, por Star Wars Rebels, que seu destino é o de um personagem fragilizado e abandonado — alguém que chega a recuar ao ouvir a respiração de Darth Vader. Aqui, começamos a entender por quê. Maul surge como uma figura fragmentada: ainda movida pelo ódio e pela vingança, mas profundamente fraturada após a ascensão do Império.

Há, inclusive, uma cena — que certamente será debatida (e possivelmente rejeitada) por parte do fandom — em que se insinua uma centelha de humanidade no personagem, associada ao seu trauma. Não bateria com força nessa tecla, já que é um terreno espinhoso, mas nisso Filoni mostra certa unidade com os tema da trilogia sequel (Filmes VII, VII e IX), mostrando que mesmo o cão de ataque do lado sombrio pode experimentar a “tentação da luz”.

Fazer Star Wars, nos últimos anos, tem sido um exércicio constante de equilibrar pratos girando sobre palitos, num espetáculo circense de beleza e técnica. E os pratos que permanecem no ar são justamente aqueles que compreendem seus personagens, oferecendo alguma unidade a uma franquia que há tempos parece tensionada por direções conflitantes.

Em última instância, é preciso aceitar que nem todo projeto de Star Wars será universal. A tentativa de agradar a todos pode conduzir a franquia a um esvaziamento criativo do qual talvez não se recupere. “Andor” funcionou como thriller de espionagem. “Rogue One“, como narrativa de guerra. As primeiras temporadas de “The Mandalorian” encontraram força no faroeste espacial.

A chave, portanto, está em entender a história que se quer contar dentro do gênero escolhido. “Star Wars: Maul – Shadow Lord” sabe o que é — um thriller policial de ficção científica — e brilha quando abraça essa identidade. Com a segunda temporada já confirmada, resta torcer para que a Lucasfilm siga explorando os motivos que fazem de Maul uma das figuras mais fascinantes — e perigosas — desse universo.

plugins premium WordPress