O Problema dos 3 Corpos da Netflix é ambicioso, mas ainda precisa pagar o que prometeu
Fãs de ficção científica são, muitas vezes, exigentes. Gostamos de tramas envolventes, mas que nos desafiem com conceitos científicos complexos. Não é sempre que temos ambas as coisas, mas certamente é o caso do livro “O Problema dos 3 Corpos“, de Cixin Liu, o primeiro de uma trilogia do mais célebre autor de ficção científica da China.
Publicado em 2014, e vencedor de um prêmio Hugo, o livro ensaiou várias entradas no cinema e na TV. No ano passado, após o anuncio da produção da Netflix, a primeira adaptação foi realizada na China. Chamado Three-Body, a série orginal começou a ser produzido ainda em 2020, quando diretor Lei Yang assumiu o comando das gravações e as estrelas Zhang Luyi, Hewei Yu e Chen Jin/Wang Ziwen foram anunciadas, respectivamente, como o protagonista Wang Miao, o detetive Shi Qiang (também chamado de Da Shi) e a astrofísica Ye Wenjie.
É tentador comparar as duas obras, a chinesa e a nova versão da Netflix, comandada pelos produtores de Game of Thrones, David Benioff, D. B. Weiss. Mas essa tentativa seria vã, uma vez que cada adaptação toma caminhos distintos e alcança méritos diferentes em temática e ritmo.
A trama
Na trama do livro, em 1967, no auge da Revolução Cultural, a jovem física Ye Wenjie assiste impotente enquanto os fanáticos Guardas Vermelhos espancam seu pai até a morte. Ela acaba em uma reeducação remota ( ou seja, trabalho forçado ) não muito longe de uma instalação militar imponente e ultra secreta chamada Base da Costa Vermelha. Eventualmente, Ye é reconhecida por seus conhecimentos em física e é colocada para trabalhar na Costa Vermelha como técnica, mas passa a se perguntar o que realmente acontece lá. Pesquisa sobre armas, certamente, mas também está ouvindo sinais do espaço — talvez até respondendo.
A trama salta no tempo então cerca de 40 anos, quando vários cientistas começam a ser encontrados mortos e a própria física do planeta dá sinais de não estar funcionando. O que se desenvolve a seguir é um thriller científico que não teme ser complexo. Já a adaptação da Netflix é mais enxuta e mais diversificada que o livro, de uma maneira que a torna um tipo muito diferente de história. Frequentemente, é bom — e, ocasionalmente, ótimo —, funcionando como um curso introdutório para as ideias básicas e conceitos maiores que moldam os livros de Liu.
Dessa forma, em vez de enfrentar a sofisticação do livro, a principal prioridade da Netflix é vender sua adaptação como uma série da HBO e alvo das principais premiações do ramo. E embora seja fácil entender as motivações disso, é difícil não ver o programa como uma versão chamativa, mas simplificada, do material de origem.
Destaque para o elenco
Considerando as dificuldade, podemos dizer que a série Netflix adaptou bem o romance, em especial em razão de um elenco internacional competente e que faz o possível para traduzir uma história notoriamente complicada para o formato episódico mais facilmente digerível. Apesar disso, “O problema dos 3 corpos” não consegue esconder uma direção de arte monótona, design e diálogos exagerados e tentativas pesadas de drama cínico que arrastam seu potencial para baixo. Isso é especialmente decepcionante, mesmo após a introdução dos elementos extraterrestres e de videogame, pois eles apresentaram apenas o mínimo de capricho para diferenciar essas novas dimensões do mundo real acinzentado.
No elenco, estão presentes Benedict Wong (Doutor Estranho),Rosalind Chao (Sweet Thoth) , Jonathan Pryce e Liam Cunningham (todos de Game of Thrones). Mesmo que não tenham uma posição de poder na série, todos esses atores citados até agora são colocados em pedestais ou pináculos em seus papéis. São eles que movem a trama, fazendo com que ela se estabeleça. Mas é com outro grupo do elenco em que a série brilha. Um segundo grupo que basicamente reage aos acontecimentos, os 5 de Oxford: Eiza González, Jess Hong, Jovan Adepo, John Bradley e Alex Sharp.
Esses são os personagens sobre os quais recaem a verdadeira força dramática da série, já que há neles certa aura do destino como se fossem eles os heróis improváveis, escolhidos pela força da história para preparar a humanidade contra seu maior desafio. Difícil dizer sobre estes trabalhos sem cair em revelações do enredo, mas nisto a produção deve ser elogiada por sua incrível ambição e por conseguir se amontoar e introduzir tantos tópicos de enredo e temas centrais em tão pouco tempo. Mais importante ainda, é no drama e no peso das atuações que ela cria intrigas suficientes para manter os espectadores interessados pelo restante da temporada.
Com ótimas oportunidades para sanar seus defeitos nas próximas temporadas, basta esperar pelo sucesso para que esta história encontre seu desfecho na TV.