Resenha | O Máskara

Depois do sucesso da adaptação do quadrinho estrelada por Jim Carrey em 1994, “O Máskara” recebeu um animação infantil que teve imenso sucesso no Brasil. Companheiro das manhãs com outras animações que abusavam do absurdo, como “Freakazoid!” e toda uma leva de desenhos da Cartoon Network. Tanto as animações quanto o filme levavam o politicamente incorreto até o limite permitido da audiência, mascarando a violência e sexualidade com doses cavalares de cores e movimento. Era hilário.

Mas toda essa vocação de “O Máskara” para o politicamente incorreto sempre pareceu apontar numa direção sem volta rumo às narrativas adultas. Isso se devia ao fato de que sua origem nos quadrinhos era justamente o campo fértil da ultraviolência e do humor negro. Publicado este mês no Brasil pela editora Pipoca e Nanquim, temos agora uma edição especial que reúne os três primeiros arcos do personagem. Na trama, quando Stanley Ipkiss encontra uma misteriosa máscara num antiquário percebe que adquiriu poderes ilimitados de um personagem de desenho animado.

Esqueça o mantra de poderes e responsabilidades, e esqueça o jovial porém apático Stanley Ipkiss de Jim Carrey. O protagonista desta história, quando sem a máscara, é neurótico e obcecado; e quando em posse do artefato, é um assassino sádico. Ao buscar diversas vinganças pessoais, acaba se colocando em contra a polícia personificada pela figura do Tenente Mitch Kellaway que acabará por ser um personagem muito importante na história da passagem da Máscara por nosso mundo.

Escrito por John Arcudi, o texto é ágil e violento. Recheado de citações de filmes e situações que reconhecemos de desenhos animados. Assim como no desenho animado e no filme da década de noventa, existe aqui a quebra da quarta parede tanto para efeitos cômicos como para dar andamento à trama com explicações pontuais. Não há como como não pensar que este quadrinho acabou influenciando escritores posteriores no trabalho com outros personagens, Deadpool como exemplo.

Vale ressaltar a arte de Doug Mahnke, que elaborada para tornar cada cena gráfica não no sentido da definição, mas sim como hipérbole. É curioso que isso seja feito num traço que até pode ser chamado de simples, mas que parece beber de influências tanto dos cartoons de matinê como de publicações de nicho como a Heavy Metal Magazine. Tudo isso dá a este quadrinho, uma boa dose de originalidade e por que não, vanguarda.

Numa edição bonita e bem acabada, em capa dura, temos aqui uma ótima adição à coleção. Criado por Mike Richardson, fundador da Dark Horse, O Máskara figura entre grandes clássicos esquecidos do quadrinhos de humor negro. Diverte e tem seu lugar entre outros tantos, como Juiz Dredd e Hellboy, com os quais não mantém exatamente smelhanças, mas um espírito de um tempo. Assim, ajuda a compreender todo o cinismo de uma geração e de uma forma curiosa, como esse cinismo foi transformado na mais pueril diversão infantil.

Editora: Pipoca e Nanquim

Autor: John Arcudi

Arte: Doug Mahnke

Páginas: 380