Resenha – Teocrasília

Talvez não seja a primeira coisa que surja a mente de uma pessoa ao acordar. Pode ser até mesmo que boa parte das pessoas sequer pense na questão a fundo, se não for provocada. Mas o fundamentalismo religioso é um montro sempre à espreita. Ao se debruçar sobre isso, “Teocrásilia” de Denis Mello discute a questão sob uma ótica assustadora e fantasiosa.

A linha tênue

Como bem sabem, vivemos num momento histórico muito polarizado politicamente, onde possivelmente somos testemunhas de movimentos que modificarão muito o panorama da distribuição de poder na história. E como a arte é fundadora e testemunha da história, parece-me um contra senso analisar essa obra apenas pela ótica do entretenimento. “Teocrasília” não se pretende a ser um manifesto. Suas mensagens sobre liberdade religiosa e autoritarismo surgem mais como citações, bem à moda da narrativa brasileira contemporânea.

Existem aqui cenas que nos lembram das jornadas de julho de 2013 ainda estão frescas na memória e isso é usado, embora não contextualizado. A trama abre num grande conflito com a polícia, no que parecer ser a tomada de poder de grupos extremistas evangélicos, situação que gera o título da história. A partir disso, passamos a conhecer a realidade, tomada por dogmas religiosos e uma sociedade militarizada do controle dos cidadãos. Contra ela, um grupo de amigos pretente montar uma sociedade alternativa.

A história como motor das histórias

O uso do termo “sociedade alternativa” não parece ter sido usado em vão. Nem poderia. A icônica canção de Paulo Coelho e Raul Seixas é tanto um simbolo quanto um exemplo do modus operandi de artistas que se insurgiram contra o regime autoritário da ditadura militar brasileira. Qualquer pessoa que tenha lido um pouco sobre os movimentos de contracultura da época ou tenha se aventurado a consumir as obras desses artistas, reconhecerá de imediato. Nesse tom relacionável encontra-se o maior mérito e a maior fraqueza da HQ. Se por um lado, a recorrência desses elementos – As jornadas de julho, a estética evangélica, a sociedade alternativa e etc – torna a HQ forte em relação ao público progressista, o mesmo não se pode dizer do resto. E pra isso falta história.

Para me fazer entender, vamos a um exemplo de quadrinho político bem sucedido. Em “Persépolis”, de Marjane Satrapi temos um panorama que segue em segundo plano, mostrando como uma sociedade iraniana laica se transforma radicalmente após uma revolução totálitária religiosa. Assim a trama constrói o choque, pois para o leitor ocidental, ignorante da história iraniana é preciso mostrar como algo do tipo pode acontecer naquela sociedade.

Dói dizer, mas o leitor brasileiro é igualmente ignorante a respeito da própria história. Por isso, é forçado e artificial pensar que o leitor médio vá aceitar que o país foi tomado da noite para o dia por uma “Polícia da santidade”, embora, em último grau, o pensamento que permitiria tal fato também esteja presente na cosmovisão desse mesmo leitor.

Ainda assim a trama é bem construída e é narrativamente bem feita. Mas embora faça o desclaimer necessário para não ser tachada de intolerante pelos intolerantes, a trama perde força e em vez de fundar a discussão. Já disse certa vez, Tom Zé e seu “Complexo de Épico”, e eu completo, que “esta mania danada de falar tão sério” apenas retrata a realidade de forma rasa, irônicamente pregando para convertidos.

 

Teocrasília, 2020
Desenhos e roteiro: Denis Mello
Editora Guará