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Resenha – Eternauta

Há uma superstição na Argentina – talvez hoje com um peso muito menor que outrora – de que sempre que neva em Buenos Aires, algo ruim acontece. Dessa forma, a figura mais lembrada de “Eternauta”, grafic novel escrita por Héctor Germán Oesterheld, é a figura enigmática e assustadora de um homem vestindo um escafandro e portando uma espingarda enquanto caminha pela neve sem fim.

Falha minha ter conhecido Eternauta tão tarde na minha vida de colecionador de quadrinhos, eu que sempre mantive meus olhos para as produções americana e japonesa, e em menor grau para a europeia. “Eternauta” diz muito sobre a vida na américa latina, tomada pela ameaça de guerra entre as potências mundiais e sob o eterno risco do autoritarismo militar, mas passa longe de ser um documentário, honrando a tradição do Scifi com gigantescos méritos. A história foi publicada semanalmente na revista Hora Cero, entre os anos de 1957 e 1959, com arte de Francisco Solano López. No Brasil, só deu as caras em 2010 lançado pela editora Martins Fontes, e foi relançada em 2019.

Com um remake menos inspirado produzido em 1969, com arte do gigante Alberto Breccia e uma sequencia do material original com o retorno de Solano López, é uma série em quadrinhos que merece ter mais destaque do que apenas ser lembrada como um clássico nunca lido. Uma edição de luxo lançada no Brasil cairia bem e o que se vê no cotidiano do protagonista Juan Salvo, sua família e amigos que estão em uma casa isolada é exatamente isso, todos assistindo atônitos a neve caindo.

O título do quadrinho, que parece não se coadunar com a premissa básica, já se explica já nos primeiros quadros quando o protagonista se vê como um viajante no tempo que cruza o espaço tempo para explicar a um quadrinista no futuro por tudo que aconteceu na sua vida. O traço é maravilhoso e se encaixa perfeitamente num tom realista, que remete à literatura de H.G.Wells e Julio Verne.

A trama principal então se inicia com a neve que cai na capital, descrita como tendo cor diferente, fosforescente, logo as pesonagens percebem que todos que entram em contato com ela acabam morrendo instantaneamente. Os protagonistas, seguros dentro de suas casas logo improvisam armas e equipamento de segurança para sair e encontrar as outras pessoas. Ler isso em 2021 tem um significado há mais.

As descobertas se dão aos poucos, e a trama cresce devagar rematendo primeiro ao medo da radiação, referenciando um mal típico daqueles anos de Guerra Fria até temas muito maiores. Não dá pra falar tudo, este é um material que cabe ao resenhista apenas instigar a curiosidade. A arte em preto e branco evidencia o clima noir e evoca constantemente o aspecto comum da morte, já que o sangue e a neve se misturam nos mesmos tons.

Ouvi boas recomendações sobre a tradução nacional, feita por Rubia Prates Goldoni e Sérgio Molina, mas com o material esgotado tive mais facilidade em conseguir uma versão em inglês com um amigo. Se possível, leiam a tradução nacional.